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calvin theo: teologia

O Humanismo Social de Calvino - Caderno 11 de O Estandarte

Prefácio

Só se pode falar com simplicidade e clareza das coisas que se conhece a fundo. Depois de nos ter dado, em seu O Pensamento Econômico e Social de Calvino, uma análise profunda e original da ética social do reformador de Genebra, o pastor Biéler dá-nos agora um apanhado lúcido das convicções centrais que dominam essa ética.

Muitos leitores ficarão surpreendidos de encontrar aí um Calvino bem diferente da imagem que se tinha dele. Calvino – que nos parecia obcecado pela glória de Deus – um humanista? Calvino – acusado de ser o pai do laissez-faire capitalista – um socialista personista? Calvino – o autocrata – um defensor, sob tantos aspectos, da igualdade? O Prof. Biéler sabe do que fala. Os que quiserem aprofundar-se no sentido dessas afirmações poderão ir à obra principal do autor, e aí encontrarão provas pormenorizadas de tudo isso.

O fato é que Calvino é interpretado freqüentemente através do calvinismo. Esse calvinismo que optou por uma parte de sua herança e que deixou de lado aspectos importantes do pensamento de seu mestre. Às igrejas calvinistas tem, não raro, faltado coragem e vitalidade necessárias para o desempenho de sua missão profética, missão que, para Calvino, era um dever essencial da igreja.

Se Calvino tivesse sido ouvido, grandes males teriam sido evitados. Dou um exemplo: todo o mundo conhece a imensa importância que o slogan “a cada um segundo as suas necessidades, de cada um segundo as suas capacidades” tem para o comunismo. Lenine entende que o alvo final do comunismo será atingido quando esse slogan puder ser realizado. Lenine pensa que esse slogan vem de Marx; e Marx efetivamente o utilizou. Mas nem Lenine nem Marx se deram conta de que, nos comentários de Calvino (2Co 8.13-14), esse mesmo pensamento fora formulado trezentos anos antes. Calvino diz: “Deus deseja que haja tal analogia e igualdade entre nós que cada um socorra os pobres segundo as suas possibilidades a fim de que alguns não tenham em excesso enquanto outros sofram penúria”. Se as igrejas tivessem levado a sério esse ensino, não veríamos hoje esse pensamento profundamente bíblico deslocado de seu contexto cristão e transplantado para um contexto materialista e totalitário.

Confrontados, como somos hoje, por uma sociedade desorientada onde o sentido da solidariedade humana e da responsabilidade social se enfraquece mais e mais, sentimos chegado o tempo de redescobrir o ensino de Calvino sobre o humanismo cristão que, fundado sobre o humanismo de Deus, pressupõe uma sociedade onde o ser humano age na qualidade de responsável perante Deus e responsável por seus irmãos.

W. A. Visser’t Hooft