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calvin bio: vida e obra

João Calvino

1509
João Calvino nasceu em 10 de julho na cidade francesa de Noyon, sendo seus pais Gérard Cauvin e Jeanne le Franc, de origem burguesa. O pai, habilidoso em questões administrativas e escrivão do bispo de Noyon, teve outros quatro filhos. João foi destinado ao sacerdócio. Com a morte da mãe, quando tinha apenas 3 anos, passou a conviver no lar de duas famílias aristocráticas, com seus filhos.

1521
Após as primeiras letras, aos 12 anos, recebeu um benefício eclesiástico ao ser nomeado responsável pela capelania de la Gésine, pertencente à catedral de Noyon, que lhe garantiu a possibilidade estudar em Paris. Jovem inteligente, dedica-se ao aprendizado da língua latina, sob os cuidados do pedagogo Marthurin Cordier, do Colégio Sainte Barbe. Com ele passa a conhecer uma forma de piedade diferente, centralizada em Jesus Cristo.

1524-1528
Nesse período, na capital francesa, Calvino freqüentou como aluno interno, o Colégio Montaigu, no Quartier Latin, famoso por sua disciplina rígida e ortodoxia, estudando humanidades (filosofia aristotélica), como preparação para o curso superior de Teologia. A cidade vivia o impacto das perseguições e condenação às idéias de Martinho Lutero. Ao final de 5 anos de uma vida ascética, recebeu o título de Mestre em Artes.

Seu pai, tendo entrado em conflito com o bispo em Noyon, viu na carreira de jurisprudência um destino mais promissor para o filho e o encaminhou para a cidade de Orléans, a fim de estudar Leis. Foi a oportunidade para Calvino encontrar o primo Roberto Olivétan, que já havia aderido ao movimento reformador. Neste centro de humanistas interessados na renovação da Igreja e influenciados por Erasmo, dedicou-se ao aprendizado do grego com o professor Melchior Wolmar, de Wittenberg, adepto da Reforma. Apesar da resistência às idéias vindas da Alemanha, Calvino se torna um profundo admirador de Lutero e, paulatinamente, sua prudência humanista será transformada em radicalidade evangélica.

1529
Dando continuidade ao estudo de Direito, Calvino matricula-se na Universidade de Bourges, atraído pela fama do jurista italiano Alciati, capaz de utilizar os fundamentos teóricos do Direito para a construção de uma ordem jurídica prática, voltada para a realidade presente.

1531
Calvino, de volta a Noyon, discute com o clero o sepultamento de seu pai Gérard, que havia sido excomungado pela Igreja.

1532
Novembro: recebe o título de Licenciado em Leis. Com o falecimento do pai e o retorno a Paris, adota o projeto pessoal de seguir a carreira literária, com uma vida independente e, de certa forma, descompromissada. Aprofunda os estudos de grego e hebraico, acompanhando o novo curso dado pelos Preletores Reais, humanistas nomeados pelo Rei Francisco I. Ali se busca o estudo científico e livre das Escrituras e suas fontes, com uma perspectiva crítica sobre sua tradução latina (Vulgata).

Abril: Calvino publica, por conta própria, sua primeira obra, com teor humanista, tratando da tolerância como virtude do governante: Comentário sobre De Clementia, do filósofo latino Sêneca. Seu principal mérito foi desenvolver um método de trabalho literário que seria aperfeiçoado mais tarde, aos escrever os comentários aos livros da Bíblia.

1533
Uma profunda experiência religiosa de “súbita conversão”, que na verdade pode ter ocorrido de forma gradual, se iniciou provavelmente neste ano na vida do futuro reformador. Como escreveu no Comentário ao livro dos Salmos: “Deus subjugou meu coração e o dispôs à docilidade.”

Novembro, dia de Todos os Santos: o reitor da Universidade de Paris, Nicolas Cop, na abertura do ano letivo, pronuncia um discurso refletindo idéias luteranas que foram atribuídas à influência do amigo e jovem estudioso João Calvino. A forte reação dos teólogos da Sorbonne, faz com que os dois sejam cassados pelas autoridades, tendo que abandonar Paris, em direção ao sul (Saintonge). Calvino se refugiou por alguns meses em Angoûleme, na casa de um clérigo seu amigo, Louis de Tillet, e na vasta biblioteca de sua família, inspirado nos trabalhos de Lutero, iniciou a redação da Instituição da Religião Cristã Ali reinava Margarida de Navarra, irmã do rei da França, simpática às idéias evangélicas e protetora de seus seguidores.

1534
Na cidade de Nérac, encontra-se com o velho inspirador da Reforma na França (a estrela d´alva): Lefèvre d´Étaples. Dedica-se a escrever Psychopanichia, contestando a idéia anabatista do sono da alma após a morte, enquanto aguarda o juízo final. Em Poitiers, pregando a camponeses em uma gruta, teria ministrado a Santa Ceia pela primeira vez.

Maio: diante do clero em Noyon, Calvino renunciou aos benefícios que recebia da Igreja desde os doze anos e que lhe garantiram os estudos. Foi a última vez que esteve em sua cidade natal.

Outubro, 17: a colocação de cartazes criticando a missa não só em Paris, como em outras cidades e nas proximidades da residência do rei. A ousadia desencadeou em toda a França uma dura perseguição aos evangélicos.

1535
O refúgio de Calvino e seus amigos agora é a Basiléia, ao norte da Suíça, uma cidade reformada e pluralista. Para se proteger, vive discretamente em um quarto alugado e utiliza o nome fictício de Martinus Lucianus. Trava amizade com Farel, Viret, Bullinger. Lê os Pais da Igreja, Lutero, Melachton, Bucer. Embora distante de Paris, não fica calado.Utiliza sua pena para escrever.

Em junho foi publicada a primeira tradução reformada da Bíblia para o francês (NT), feita por seu primo Roberto Olivétan e patrocinada pelos valdenses. O prefácio, escrito por Calvino, é considerado seu primeiro texto publicado em francês: “Epístola a Todos os que amam a Jesus Cristo”. Igualmente, trabalha com ardor para concluir a obra que, de modo especial, haveria de fortalecer a caminhada da Reforma na Europa – Instituição da Religião Cristã. Em agosto redigiu o seu prefácio: “Epístola ao rei Francisco I”. Nele procurou mostrar ao rei que aqueles que ele perseguia eram os verdadeiros seguidores do evangelho e que a verdadeira Igreja de Jesus Cristo poderia estar encoberta aos olhos dos homens.

Na França, muitos de seus amigos são condenados e mortos na fogueira. Em janeiro, o rei havia suspendido a publicação de livros. Apesar dos obstáculos e de ser visto como ameaça à velha ordem política e religiosa, o protestantismo se espalha rapidamente pelo reino.

1536
Março: é publicada, na Basiléia, a 1ª. edição da Instituição da Religião Cristã, com seis capítulos, logo totalmente vendida. Como fugitivo, Calvino continua sua peregrinação. Viaja ao norte da Itália e é hospedado no castelo da duquesa Renata de Ferrara, que viera da França. Aí conheceu o poeta Clément Marot, também fugitivo e que, mais tarde, em Genebra, utilizaria seus dons escrevendo hinos para o Saltério de Genebra.

Maio, 21: pela ação do missionário francês Guilherme Farel que atuava em Genebra desde 1532 como enviado da protestante Berna, os cidadãos juraram pública e unanimemente “viver de acordo com a nova Fé Reformada” e, “a Palavra de Deus, abolindo todos os princípios papais.” Um ano antes, o Conselho Municipal decidira que a missa não seria mais celebrada em seu território. Assim, o clero, o bispo e o Duque foram praticamente expulsos.

A cidade precisava ser reorganizada, não só do ponto de vista religioso, mas também político e social. Farel, consciente da enorme tarefa à frente e das limitações, especialmente quanto aos recursos humanos, sentia-se aflito e sem perspectivas. Por seu turno, os genebrinos sentiam-se ameaçados em sua autonomia pelas pretensões de Berna e da Confederação Suíça ao norte, bem como pela Casa de Sabóia e seu Duque, ao sul. Diante da difícil situação, deviam estar prontos para lutar pela independência. Teriam êxito?

Julho: de Paris, como perseguido, Calvino se dirige à cidade de Estrasburgo com seus irmãos Maria e Antonio mas a estrada, obstruída por causa da guerra entre o rei da França e o imperador Carlos V, fez com que eles pernoitassem na cidade de Genebra. A inesperada visita de Farel e sua ameaçadora insistência, em nome de Deus, venceu a relutância do homem frágil e tímido de 27 anos, que pretendia se dedicar à literatura e viver uma vida calma. Como resultado, permanece na cidade sendo contratado para atuar, primeiro como “preletor das sagradas Escrituras” na Catedral de Genebra e, no final do ano, como pastor. Na nova situação, sentiu-se plenamente legitimado como reformador da Igreja, chamado por Deus para o desempenho dessa missão especial.

Outubro: Calvino, acompanhando Farel e Viret, participa de um debate público com padres católicos em Lausanne. Sua contribuição foi decisiva para que os reformadores tivessem um resultado favorável. A partir de então, passa a ser respeitado não só pela capacidade de argumentação como também pelo conhecimento revelado nas citações de memória dos principais teólogos dos primeiros cinco séculos da Igreja Cristã.

1537
A necessidade de um catecismo faz com que Calvino escreva e publique a Instrução na Fé, um pequeno resumo da Instituição, para os jovens e da população de Genebra.

1538
Abril: face aos artigos estabelecidos pelos pastores para regulamentar as questões religiosas e litúrgicas, os novos síndicos da cidade, opondo-se à idéia de Calvino, de autonomia da Igreja em assuntos espirituais, resolvem adotar o modelo de Berna, que não fazia a mesma exigência. Diante do descontentamento mostrado por Farel, Calvino e seus companheiros, o Conselho Municipal reagiu, expulsando-os da cidade por ocasião da Páscoa.

Dispostos a continuar servindo a Deus em qualquer outro lugar, Farel foi para Neuchatel. Calvino pensou em voltar à tranqüilidade e aos estudos em Basiléia, mas acabou convencido por Martinho Bucer a ir para Estrasburgo. Aí foi encarregado de pastorear uma comunidade de refugiados franceses e dar aulas de exegese na Escola de João Sturm, começando com a Epístola aos Romanos. Além do tempo dedicado a fazer uma autocrítica do ocorrido na Igreja de Genebra, aproveitou para aprofundar seus estudos de teologia, bem como da liturgia de Bucer.

1539
Setembro: atendendo à solicitação do Conselho de Genebra, Calvino prepara uma resposta magnífica a Sadoleto, descartando o apelo do cardeal para que Genebra voltasse à antiga fé católico-romana. Publica a 2ª. edição da Instituição, totalmente revista e ampliada para 17 capítulos, em latim(1539) e depois, em francês (1541). É publicado seu primeiro comentário às Escrituras, visando seus compatriotas: Romanos. Neste ano, após se inscrever na corporação de alfaiates de Estrasburgo, Calvino obtém o título de burguês.

Participa de colóquios internacionais organizados pelo Imperador visando a paz religiosa entre partidários da Reforma e os católicos. Primeiro, em Frankfurt (1539), depois, Hagenau, Worms (1540-41) e Ratisbona (1541). Nesses encontros, que não alcançaram o objetivo almejado por Carlos V, conheceu os teólogos alemães e se tornou amigo de Filipe Melanchton, braço direito de Lutero.

1540
Agosto: Guilherme Farel, em Estrasburgo, impetra a bênção sobre o matrimônio de Calvino com Idelette van Buren, viúva de um anabatista.

1541
Setembro, 13: diante dos problemas causados pela ausência dos reformadores, os Conselhos da cidade apelam para que Calvino retorne. Atendendo à solicitação, ele declara que deseja servir Genebra novamente e então, seus destinos são ligados para sempre. Suas condições: que fossem mantidos o Catecismo e a disciplina eclesiástica. É revogado o ato de 1538 pelo qual os pastores haviam sido expulsos. Publicação do Pequeno Tratado sobre a Santa Ceia.

Novembro, 20: são aprovadas, com algumas emendas, as Ordenanças Eclesiásticas propostas por Calvino para servirem como a nova ordem civil e religiosa para Genebra. Seguindo o modelo de Estrasburgo, ficou estabelecido que na Igreja existem quatro ofícios: pastores, doutores, presbíteros e diáconos. Ao diaconato competia a responsabilidade pelo grande Hospital, o atendimento aos pobres e doentes. Havia também o Consistório, (Presbitério) que cuidava da disciplina moral e espiritual. Era formado por 12 leigos (anciãos) eleitos pelos Conselhos da cidade, mais os pastores, em minoria. Calvino lutou para que a Igreja, sob a Palavra de Deus, tivesse autonomia em questões espirituais, sem ter que sofrer a interferência do poder civil, como acontecia nas igrejas da Alemanha e da Inglaterra.

1542
Julho: um primeiro filho, prematuro, Jacques, morreu 15 dias após o nascimento.

1544
Sebastião Castelio, diretor de colégio, contestou as idéias de Calvino e foi banido de Genebra. Mais tarde, na Basiléia, após a morte de Serveto, escreveu um folheto defendendo a liberdade dos hereges exporem suas idéias bem como a tolerância para com eles.

1549
Março, 29: morre Idelete, a esposa de Calvino.

1553
Agosto: Processo e morte de Miguel de Serveto. Como havia acontecido em Vienne, na França, o médico e teólogo espanhol Serveto também foi processado em Genebra por idéias consideradas heréticas, sendo a principal delas contra a doutrina da Trindade. Apesar da sua defesa pelos opositores de Calvino, ele acabou condenado pelo Pequeno Conselho. Outubro, 27: consultadas, as Igrejas evangélicas suíças, aprovaram a condenação e morte de Serveto na fogueira. 350 anos mais tarde, em 1903, os reformados, como filhos reconhecidos de Calvino, ergueram em Genebra um monumento a Serveto, condenando o erro de seu mestre, “que foi o do seu século” – a intolerância.

1555
A afluência de estrangeiros em grande número na cidade, que passou a ter cerca de 20.000 habitantes, fez com que ocorresse uma significativa mudança na política de Genebra. A oposição a Calvino (os perrinistas) foi praticamente derrotada e ele se sentiu à vontade para se dedicar a outras importantes tarefas, como a obra missionária na França, sua pátria. 1557
Março, 7. Chegada de quatorze genebrinos, entre eles dois pastores, à França Antártica, na Baia da Guanabara, para evangelizar os indígenas e “edificar uma Igreja Reformada segundo a Palavra de Deus”. Enviados por Calvino, atendendo a um pedido de Nicolau Durand Villegaignon, acabaram sendo perseguidos e três deles foram mortos como mártires da causa reformada no Brasil.

1559
Organização do Sínodo Nacional das Igrejas Reformadas da França, altamente influenciado pelas idéias de Calvino.Última edição revista e ampliada da Instituição ou Institutas, agora com 4 livros divididos em 80 capítulos, completa um trabalho de toda sua vida. Logo se seguiram as traduções em diversas línguas.

Junho, 5: para atender às necessidades do mundo reformado Calvino, com dinheiro vindo de inúmeras doações, funda a Academia de Genebra com cursos a nível de formação e universitário (teologia, medicina e leis). Tendo como primeiro reitor Teodoro Beza, exerceu grande influência por seu alto nível de ensino e espiritualidade. Por ocasião da morte do reformador, eram 1500 os alunos matriculados, em sua maioria, estrangeiros. A Academia havia se tornado um importante centro missionário na Europa.

Foi somente neste ano que Calvino recebeu o título de “bourgeois”, saindo da condição de estrangeiro (habitant) na república de Genebra. Sua reconhecida influência só ocorreu na cidade de maneira indireta e por causa de seus dotes pessoais.

1562
Março, 1: com o massacre de protestantes em Vassy, iniciam-se as guerras religiosas na França.

1564
Fevereiro, 6: última pregação de Calvino na Catedral de São Pedro.

Abril, 27: despedida dos Conselhos e Pastores. A estes lembra que a obra da Reforma, deve continuar. Reconhece seus defeitos e fraquezas, pedindo perdão. Entre tantas visitas recebe a do amigo Farel, com 75 anos. Seus poucos pertences foram destinados à Academia de Genebra e aos refugiados.

Maio, 27: morte João Calvino, aos 55 anos incompletos, vítima de doenças que acompanharam seu frágil corpo durante toda a vida: gota, estômago, intestino, rins, pulmões. Suas últimas palavras: quanto tempo mais, Senhor? Sepultado em um túmulo simples, sem qualquer aparato, sequer uma lápide que o identificasse, hoje não se sabe o local exato de sua sepultura no cemitério, cumprindo-se assim um dos seus últimos desejos. Tendo vivido de maneira simples, seu desprendimento pessoal foi mantido até o fim da vida.

Além de uma vida dedicada como pastor, professor e estadista, João Calvino deixou, como fruto de um incansável e produtivo labor, um legado extremamente importante que está registrado em suas inúmeras obras: comentários à maioria dos livros da Bíblia, tratados sobre variados temas teológicos, cerca de dois mil sermões, número semelhante de cartas endereçadas a pastores, refugiados, personalidades religiosas e políticas, monarcas (Inglaterra, Suécia e Polônia). Traço marcante e indelével no conjunto de sua obra e pensamento, desde o Tratado da Santa Ceia até a última edição das Institutas, foi o empenho para conciliar, por um lado a busca da verdade e por outro, a restauração da unidade da Igreja, o que tem feito com que, mais e mais ele seja reconhecido como um dos precursores do movimento ecumênico moderno.